Cotação do trigo atinge maior nível em meses
Brasil pode ampliar importações de trigo
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A cotação do trigo voltou a subir no mercado internacional na última semana, impulsionada por fatores geopolíticos e climáticos. Segundo análise da Central Internacional de Análises Econômicas e de Estudos de Mercado Agropecuário, referente ao período de 24 a 30 de abril, o contrato do cereal na Bolsa de Chicago atingiu US$ 6,49 por bushel no dia 28, o maior nível desde 4 de junho de 2024. No encerramento de quinta-feira (30), a cotação recuou para US$ 6,23, ainda acima dos US$ 6,10 registrados uma semana antes.
De acordo com a entidade, a alta está ligada à continuidade da crise no Oriente Médio e às dificuldades para uma solução do conflito, além das preocupações com o clima nas regiões produtoras do Hemisfério Norte. A atuação dos fundos de investimento, que voltaram a ampliar posições compradas, também contribuiu para sustentar os preços.
Nos Estados Unidos, as condições das lavouras indicam cenário misto. Até 26 de abril, 35% das áreas de trigo de inverno eram classificadas entre ruins e muito ruins, enquanto 30% estavam entre boas e muito boas. Já o plantio do trigo de primavera alcançava 19% da área prevista, abaixo da média histórica de 22%, com 5% das lavouras já germinadas.
As exportações norte-americanas somaram 365.156 toneladas na semana encerrada em 23 de abril, elevando o total embarcado no atual ano comercial para 21,8 milhões de toneladas, volume superior ao registrado no mesmo período do ciclo anterior.
No Brasil, a valorização externa começa a influenciar o mercado interno em um momento de entressafra e de redução da área prevista para o próximo plantio. Ao mesmo tempo, moinhos buscam recompor estoques, o que sustenta a demanda. Ainda assim, o cenário é de volatilidade, com aumento expressivo nos custos de produção, especialmente de fertilizantes, que acumulam alta superior a 60% desde o início da guerra no Oriente Médio.
Segundo analista da StoneX, o avanço desses custos tem impacto direto sobre a rentabilidade do produtor. “o aumento dos custos com fertilizantes nitrogenados reduz de forma direta a margem de lucro da produção de trigo. Com isso, muitos agricultores começam a reavaliar suas estratégias e, em alguns casos, optam por migrar parte da área para culturas que exigem menos insumos ou oferecem melhor retorno financeiro”.
As dificuldades logísticas e restrições de exportação de insumos em alguns países também afetam o abastecimento global, ampliando as incertezas. Diante desse cenário, estimativas apontam para uma possível queda de 16% na produção brasileira de trigo, que pode chegar a 6,6 milhões de toneladas, caso as condições climáticas sejam favoráveis.
Com menor oferta interna, a tendência é de aumento nas importações. Projeções indicam que o Brasil poderá importar até 8,2 milhões de toneladas na safra 2026/27, superando o recorde anterior. A demanda nacional é estimada em 13,3 milhões de toneladas, conforme dados de Conab e consultorias do setor.
Analistas de Bunge e da Abitrigo destacam que o aumento dos custos pode afetar tanto o volume quanto a qualidade da produção nacional. “o aumento dos custos, especialmente de fertilizantes, tende a pressionar as margens do produtor, o que pode levar à redução de área plantada e menor investimento em tecnologia. Isso pode impactar tanto o volume quanto a qualidade do trigo produzido no Brasil, reforçando a dependência estrutural de importações. Soma-se a isso o fato de que a capacidade das empresas moageiras de estocar trigo também é historicamente limitada, fato que as obriga a importar continuamente”.
A qualidade do trigo importado também preocupa o mercado. O produto argentino, principal fornecedor ao Brasil, tem apresentado teor de proteína inferior ao necessário para panificação, o que pode limitar sua utilização. Diante desse quadro, o mercado brasileiro deve enfrentar desafios nos próximos meses, relacionados a custos, qualidade e regularidade no fornecimento.